O Solar de Santana é um dos mais antigos e fascinantes edifícios da zona do Campo Santana. Outrora conhecido por Palácio Vaz de Carvalho ou Casa das Torrinhas, foi edificado no séc. XVII. A referência mais antiga a este imóvel, data de 1661, pertencendo ao morgadio instituído por Cecília Temudo e designado como nobres casas das Torres do Campo do Curral da Cidade de Lisboa.
No início do séc. XVIII torna-se propriedade em definitivo do seu titular, José Vaz de Carvalho, que nele aplica elevadas quantias de dinheiro para realizar obras de monta com vista à recuperação do existente e melhoramentos diversos no edificado. Assim, e tendo por base o Inventário de 1793, o edifício seria formado por diversas salas, que revelam uma construção de carácter palaciano, recriando a arquitetura nobre do século XV. É evidente o investimento do proprietário na remodelação e readaptação dos espaços interiores de forma funcional, caracterizando-se por uma residência nobre, mas de carácter campestre e servida por criadagem.
A intervenção arqueológica de diagnóstico levada a cabo no Palácio Vaz de Carvalho, permitiu identificar uma ocupação enquadrada genericamente na pré-história recente, bem como, áreas, pormenores, estruturas e pavimentos relacionados com as várias fases construtivas deste imóvel desde o século XVII até à atualidade.
São exemplo disso a complexa organização habitacional e de serventia do espaço, cujas evidências arqueológicas no subsolo comprovadamente integram entre os séculos XVII e XX: uma rede de saneamento e de adução/fornecimento de água em diferentes áreas do edifício, detetada nas diferentes salas, nomeadamente, na cozinha (um canal de escoamento de água para Norte associado a um nível de pavimento lajeado em calcário), e um sistema de drenagem do palácio.
O sistema de abastecimento de água, associa-se a uma cisterna descoberta no decorrer dos trabalhos de escavação arqueológica, cuja intervenção revelou a sua planta circular, com cerca de 3m de diâmetro e 5,5 m de profundidade, diretamente relacionada com condutas em grés de escoamento, protegidas com lajes de calcário. Este sistema de drenagem está em conexão com um nível de pavimento composto por blocos/seixos de basalto provavelmente contemporâneos entre si.
A referência histórica à existência de talhas enterradas é comprovada pela intervenção realizada, embora numa localização e de composição diferentes. Foi possível documentar a sua associação a um nível de circulação pedonal em tijoleira. De facto, foram identificados níveis de circulação interpretados como pavimentos em uso entre os séculos XVII e XX, de composições diversas, podendo os pavimentos formados por seixos ou tijoleira, ser cronologicamente associados às primeiras fases de ocupação da residência.
O desenvolvimento desta intervenção profunda arqueológica, permitiu-nos recolher e identificar elementos e materiais, enquadráveis entre o Neolítico antigo e o Calcolítico, como a rara e bela calçada centenária dos meados do séc. XVIII, com motivos geométricos brancos e pretos, típicos de época.
Esta sofreu atualmente uma intervenção de conservação e restauro, cuja metodologia assemelha-se à empregue em painéis de tesselas romano e com o objetivo de preservar a herança histórica do edifício. De igual forma, os fabulosos azulejos do séc. XVII e séc. XVIII, onde podemos verificar que os temas variam de painel para painel, observando-se assim azulejos em padrão, e figurativos que se destacam não só pela qualidade dos artistas, mas principalmente por serem elementos raros em ambientes não museológicos.
Em qualquer um dos estilos figurativos é possível atestar uma grande destreza e perícia dos artistas que os realizaram. Estes azulejos impõem temáticas típicas da época onde se podem ver figuras do imaginário (antropomórficas) executadas em traço firme mas tosco.
A partir desta descoberta arqueológica e de herança histórica, deu-se inicio a um extraordinário processo de conservação, reconversão e reabilitação cuja responsabilidade esteve a cargo dos prestigiados arquitetos Rui Pinto Gonçalves e Susana Baeta, do atelier de arquitetura RRJ Arquitetos.
Com a recuperação da beleza clássica da fachada principal, ao qual se deu um toque de modernidade, o Edifício Solar de Santana desenvolve-se a pensar na harmonia perfeita entre estética e função, clássico e moderno, privilegiando o conforto e a comodidade numa linguagem arquitetónica imponente e cativante para quem nele habita ou para quem por ele passa.